Exemplos de microcontos de Mecso (pseudônimo de Fabbio Cortez para este site)

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O semitudo


O duro espelho do lavabo não lhe dizia direito mais o rosto. Perdeu-se a tentar contar tanta marca, toda cova, cada "e se", o semitudo que passara embaçado no aço frágil da vida. Porém, ao esfregar água nos olhos, deixou um brilho distraído os tomar, viu-se de novo e sorriu.


Sem saída


Não podendo mais suportar a inveja que sentia da Vida, a Morte suicidou-se.


Breu e Madru


Debaixo do céu sem lua, uns vultos e macias cintilações brincavam velozes e eternos numa mistura pura. Eram Breu e Madru, o casal de gatos pretos de Mãe Cândida, quase invisíveis àquela hora no terreiro. Perto da alvorada, no alpendre, enfim adormeceram sua magia, parecendo uma coisa só.


Um meio


Oto queria ser e não ser. Não pôde ser e não ser. Assim dividido, ainda teve de mostrar-se inteiro.


Sob a marquise


— Prezadas baratas e ratazanas, comida azeda, vômito dos bêbados, escarros dos doentes profissionais, mijo de alucinados incontinentes de todos os sexos, xingamentos desconexos, bueiro entupido, espíritos tortos, bichos mortos, boa noite!

(Adaptado do livro Cada Dor que Anda na Rua - PerVersos Urbanos, de Fabbio)


Mortos-vivos


A cama riu um riso nervoso, o soalho rangeu os dentes, quase um choro, e o tímido abajur, vendo o rebuliço, tremeluziu reboliço. Súbito e forte, um vento beijou quente a cortina, que se abriu toda, semicretina, desnudando a janel(a)lma aos amantes mortos de prazer.


Valores às avessas (dos “Microdiálogos”)


— O que você tá fazendo, rapaz, assim se contorcendo todo?!
— Ten-ten-tando me virar do ave-e-esso...
— Como assim “do avesso”?! Tá maluco?
— É que me disseram que sou bonito por dentro...

Pietrus Taliger – polemista e poeta livre-pensador (pseudônimo de Mecso, que é pseudônimo de Cortez neste site)


Escolhas capazes (dos “Microdiálogos”)


— Mestre, nesta vida... a gente é capaz de tudo?
— Tudo... Tudo mesmo, seja para o bem ou para o mal.
— Puxa, também para o MAL ?!
— Sim, mas observe... eu disse "capaz de TUDO": até de não ser capaz.


Coisas vivas da noite


Um dos criados-mudos acordou desdizendo um ruído. Lá de fora, vestido de penumbra, o céu por acaso pela fresta viu em festa nossa cadência de estrelas trocando desejos nesse ocaso recíproco em segredo, eterno fim dos libertos presos. Após o depois, um chá de camomila, calma e docemente, bebeu nosso resto de sede.