Entrevista com Fabbio Cortez

Perguntas de RICARDO ALFAYA
(escritor e poeta)

RA - Fabbio, por que você escreve?
FC - Escrevo quando as palavras me perseguem e me incomodam. E como às vezes fico meio tímido para dizê-las (fonicamente), adesivando-as no papel ou na tela é um modo de tê-las um pouco mais sob controle.

RA - O que você considera mais importante para que uma poesia seja classificada como de boa qualidade?
FC - A Poesia acontece quando a poesia do autor encontra a poesia do leitor.

RA - Que autores influenciaram sua forma de escrever?
FC - Não se sou influenciado por alguém diretamente. Posso dizer que gosto da poética e da prosa de todos os autores criativamente claros, fluentes e simples.

RA - Sente o escrever como missão, lazer, prazer ou como conditio para a sobrevivência? Você acha que poderia parar de escrever?
FC - Um pouco de tudo isso, mais como missão. Mas só um pouco, não chega a ser um vício. Creio poder parar sim de escrever, mas somente no caso de pôr em desenvolvimento minha arte mais natural: a de cantar, interpretar músicas de qualidade.

RA - No seu entender, o compromisso social é uma condição essencial para um bom escritor?
FC - Penso haver campo para todo tipo de escrita. Há gente interessada no social, há gente querendo filosofar, há aqueles leitores querendo somente desopilar a mente. Bom escritor é aquele que supre a necessidade de algum leitor, de modo simples, como bálsamo.

RA - Que influência a Internet exerceu em sua escrita?
FC - Sinceramente, não muita. Obviamente ficou mais fácil pesquisar assuntos em geral, mas influência em si não houve muita não.

RA - Você acha que sua escrita poderá vir a afetar de alguma forma a realidade?
FC - Acho muito difícil alguém dizer o que nunca foi dito antes, mas a tentativa de contribuir de alguma forma para a mudança já é grande vitória.

RA - Que qualidade considera fundamental num escritor?
FC - Ter uma linguagem fácil, simpática, mesmo que trate de assuntos difíceis ou complexos.

RA - A crítica literária ajuda ou atrapalha?
FC - Ouve-se dizer que alguns críticos são escritores que não deram certo. Penso que os leitores é que devem criticar tal e tal obra, de acordo com suas necessidades como consumidores intelectuais-sensíveis.

RA - É notório que existe uma quantidade enorme de escritores, sobretudo no campo da poesia, em detrimento do número de leitores. A grande quantidade é para você um incentivo ou um desalento?
FC - Se a Poesia convencer você de que é um poeta, então você é um. O problema é que às vezes uma pessoa pode pensar ser a Poesia conversando consigo e na verdade ser apenas uma conversa interna. Há de se ter sensibilidade para saber diferenciar as duas coisas.

RA - O que acha que poderia ser feito, se é que poderia, para que mais pessoas se interessassem pela literatura?
FC - Na sequência: incentivo na escola, com aprimoramento da fluência entonativa das crianças e leitura por prazer; livros mais baratos; e propagandas culturais na televisão sem pseudointelectualidade.

RA - Que ambiente você prefere para escrever?
FC - Numa praça tranquila, papel e caneta à mão. Ou ouvindo música erudita. Aí dá pra ser no computador.

RA - Manhã, tarde, noite — Existe um horário que lhe seja mais propício ao escrever ou isso lhe é indiferente?
FC - Sou notívago inveterado, minha mente acorda realmente depois da meia-noite. Acho que é quando a Mente Infinita está um pouco mais disponível para presentear-me com alguma coisinha.

RA - Você utiliza algum artifício que o induza a um estado de espírito favorável à escrita?
FC - Como eu disse, música erudita. E estar só, isso ajuda bastante.

RA - O que é melhor: escrever ou ver publicado?
FC - Ver publicado encampa o processo de escrever e a publicação propriamente dita. É como fazer amor e ver seu filho nascer, é um todo. Fazer amor é bom, mas ver o fruto disso é indescritível. E escrever é fazer amor; e publicar é ter filhos.

RA - Escrever em computador ou à mão. Faz diferença para você?
FC - Depende do lugar, como eu disse, e da disponibilidade. Computador e manuscrito têm seus prós e seus contras. À mão a gente tem mais controle, eu acho, a visão é mais expandida; em contrapartida não dá pra organizar muito bem o texto, mudá-lo, realinhá-lo. Já na tela podemos transformar, deletar, guardar para depois; mas acho a visão da tela estreitadora e um tanto quanto fria.

RA - Fabbio, o que você gostaria de perguntar a um escritor? (consagrado ou não)
FC - Perguntaria a Machado de Assis (quem sabe um dia não o faça?) se Capitu afinal traiu Bentinho ou não (Cá entre nós, claro que traiu...). E disseminaria a resposta autorizada à mídia.

RA - O que mais detestaria que lhe perguntasse se a entrevista fosse ao vivo?
FC - Algo relacionado a assunto que desconheço. Muita intectualidade relacionada a leitura ampla e conhecimentos filosóficos profundos, dependendo do entrevistador, às vezes assusta. E se eu não tiver o cabedal esperado?

RA - Qual a pergunta que você gostaria que eu lhe tivesse feito e que não fiz?
FC - Suas perguntas foram ótimas. Mas gostaria de dizer rapidamente como compreendo a inspiração artística. Penso que os artistas, sejam quais forem, os que aparecem na mídia ou não, só são grandes se tiverem o espírito humilde. Massagem no ego é gostoso, e até certo ponto é válido, mas é somente na humildade é que se é grande, vira-se Artista com “A” maiúsculo, pois entrou na dimensão eterna, infinita. Entendo o Artista como antena receptora da Arte – Literatura, Poesia, Música, Atuação, Pintura, etc. Quem é Artista de fato compreende a superioridade da Arte e sabe-se instrumento dela.



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