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Público Cativo

Público Cativo

Trechos da edição eletrônica revista

Obs.: a primeira edição física (em papel) foi publicada pela Oficina Editores, Rio de Janeiro, 2007, e lançada na XIII Bienal Internacional do Livro no mesmo ano.

Ficha catalográfica

Copyright © 2007, Fabbio Cortez
Todos os direitos reservados e assegurados pela Lei 9.610/98


Capa
OFICINA Editores e Jean Moretto sobre ideia do autor

Diagramação
Sérgio Gerônimo

Revisão
O autor

__________________________________________________

C828p Cortez, Fabbio. Rio de Janeiro.
Público Cativo. Rio de Janeiro: OFICINA Editores, 2007.
100 p. ; 21 cm
ISBN 85-98285-41-2

1. Literatura brasileira – Poesia. I. Título
CDD B869.1
869.91
__________________________________________________


OFICINA Editores
Av. Mal Henrique Lott, 270/1406
CEP: 22631-370 - Rio de Janeiro - RJ
oficinaeditores@oficinaeditores.com.br
www.oficinaeditores.com.br


Impresso no Brasil
Printed in Brazil

Dedicatória-resumo

aos atuais
e futuros
amigos verdadeiros*



*Ver dedicatória completa no final do livro
.

Poema de abertura

.
.
Se observarmos bem,
temos sempre quem nos admire,
quem nos ame,
quem goste um pouco de nós.

Vá lá,
ao menos quem nos suporte.

Um público cativo,
mesmo que pequeníssimo.

Distraído
e
sono
lento
toda manhã beijo minha boca.
.

Prefácio



Cativar sem Cativeiros


Na mestria com que lida com metáforas, e na fluência com que transita por elas, fica expostamente visível o quilate da obra. Fabbio Cortez começa de onde muito poeta nem sequer imaginou aproximar-se. Sua poesia é um belo artesanato, que não enfeita apenas: questiona. Cativa, sem cativeiros. Prende a atenção do leitor, sem prendê-lo à rigidez de verdades absolutas e fórmulas fáceis. Abre um leque de possibilidades interpretativas, todas lúcidas e instigantes, desde a nomeação da divisão das partes: um (controverso) - mais de um (solidão perdida) - além do mais (ruas da vida/universos).

“Resgatei” (livrei do cativeiro do anonimato) as palavras entre parênteses, que estavam na versão original, com o intuito de assinalar a bela travessia do autor por sua própria obra: passo a passo ele vai do um – totalmente controverso (até aqui há controvérsias...) ou contra-verso (no sentido da direção contrária do convencional) – ao mais um (em que, dialeticamente, a perda da solidão corresponde a um “mais”, a um ganho afetual) – até chegar a percorrer as ruas do mundo, repletas de outros universos paralelos, para além do um e do mais de um; nesse caminhar, acompanhamos os sutis questionamentos da poiesis, ou seja, o agir da poesia, atuando em todos os tempos, espaços e lugares, fertilizando a essência do planeta.

Esteticamente, a poética de Cortez opta muitas vezes por neologismos, criações linguísticas que, ao juntarem duas palavras criando uma terceira, inventam conotações exclusivas, originalíssimas, espécies insigts, através das quais a poesia desfamiliariza chavões e estereotipias cotidianas que dificultam/impedem o pensamento crítico. O efeito de estranhamento, que nos leva à reflexão, dá-se também pelo uso de instigantes metáforas, de substantivos tornados verbos e de impactantes figuras de linguagem. Através dessas técnicas, o poeta introduz sua ironia (tropo retórico) poética, joga com a língua – no sentido barthesiano –, rompendo com uma lírica que, em vez de conscientizar, agride, sufoca e fragmenta o indivíduo. Exemplo:

(...) a dor destoutro ser e era eu...

– Dest-outro: belíssima elisão-fusão, tão pouco usada, lembrando-nos desse outro desconhecido que ignoramos, mas que vive em nós. Quais os trágicos anseios desse duplo que não é formado de duas palavras ou de dois seres, mas de um único, chocado e chocando-se contra a multiplicidade de direções, contradições e contra-dicções? O poeta capta o ser debatendo-se. O debate do ser.
No entanto, Cortez usa esses recursos com parcimônia, nos momentos exatos; sabe que não precisa abusar deles para que se perceba a marca de sua poesia. Quem escreve um vou comprar um relógio novo, ou um ampulheto, um raro, uma cercania, um sou então teu copo d’água, um ardentes, uma máquina de ferrugem doce, um sashimi (in)sensível, um o ser e o ser de minhas carótidas teimosas, um pirilampos relâmpagos e tantos e tantos e tantos outros mais, mostra o quanto entende de pathos, das paixões do mundo. Lendo, como que voltamos a acreditar na profunda revolução que o sensório promove através da poesia – que, afinal, é a carne, o cerne e a essência de todas as linguagens.

Por maior que seja, qualquer espaço é mínimo para descrever a fortíssima impressão que essa obra me causou e continua me causando. Melhor então que eu pare por aqui e deixe você viajar através das janelas abertas em cada página, descortinando o véu que encobre a realidade das emoções e intenções humanas. No final da leitura, você vai descobrir – igual a mim – que diante desse primeiro livro já estamos diante de um excelente poeta.


Leila Míccolis

Escritora de livros, cinema, teatro, TV
e co-editora do portal Blocos Online de Literatura
.

Um



As idiossincrasias do tempo


Ontem,
se amanhã eu vir minha cara dura no espelho,
atiro hoje no tempo a queda,
a ruga soturna,
a tossir minha prospectiva falta de ar.

E serei-fui sempre um fantasma do tempo
saído de cismas,
fadado a falácias,
caído em sofismas,
nas armadilhas dos dias de sempre.

_______


Complexo de igualdade


Quem sabe serei ainda meio nada,
repousando nu no movimento gago da vida?

A serenidade,
a normalidade
são muito complicadas
pra minha cabeça.

Vesti regozijante a poesia,
que me serviu como malha elástica.

_______


Ileso


a casa caiu
e eu estava dentro
da rua
ainda bem

a rua ruiu
e eu estava fora
de mim
ainda

______


Limítelis


1 A meta

Correndo faço planos nas esquinas do céu,
sempre sozinho
pretendo seguir como voam românticos,
colhendo estrelas da rua
na procura do teu ar, da tua pista,
dizendo pela cor da tua voz,
pela textura da tua tez, vou,
sairei em viagem,
saboreando os elementos,
muito mais que cinco,
ventando o cheiro do fogo que lambe teus olhos,
que dissemina da terra teus cabelos de água.


2 Fraqueza

Mas não penses que sou ingênuo,
pois que sou fraco.
E bem sei que é preciso ser forte
para ser ingênuo.


3 Alimento

A imagem que transborda do teu minério
delirante
é delícia.
Do pensamento que dilacero na tua boca
ferrosa em doce moderno
- fruta suculenta que dá força -
alimentar-me-ei,
catando perfeições simples da vida,
sarando o caminho da busca.


4 A partida

Parto em ciclos, corro, escorro, salivando
esse açúcar compulsivo,
atiro-me à tua feminina seiva torpe
nu:
alucinadas, voadoras mãos de defesa,
irregularidades da terra, raízes,
música da noite,
insetos da noite,
esperam secos
por minha cara estúpida:
esbofeteiam-me quando passo, mas não sinto
meus fios encravados da barba por fazer:
(grato por isso, sangue fervilhante da jornada!)


5 Deliberações da morte

Corro,
morro,
desmorro, desembesto para o amor,
esgotando os músculos da psique
ao lembrar que não toquei teus pelos todos
sequer
do modo levíssimo
como poderia ter tocado,
com toda a sensibilidade do mundo (um mudo)
(a que me foi dada de presente como dom especial
e de que tu nem conheceste a amostra de cílio):
demais te amo demais ainda, e mais:
de tanta querença e tão, tão sério apego,
dilacerantemente surdo adesivo de derme,
como verme até morri,
convenceu-me a morte
pela sorte distraída.
Preferi morrer, mas não paro:
ao faro da saída, corro!


6 A travessia

Então, na fronteira que a razão refaz
com o tal do amor
atravesso-me sublimado: muro alto invisível,
intransponível para alguns sentimentos menores.
Agora vivo do outro lado
desse véu, na imagem turva,
desconectando forças e pedras mágicas
dos meus restantes olhos,
reconstruindo-me

onde o desespero encontra o sublime e o perfeito,
mesmo a calma inexplicável,
num equilíbrio raro impossível-possível


7 Comiseração

Assisto com tristeza – é verdade – à perdição
incomensurável,
a dor destoutro ser e era eu:
fito-o lá, morto, cantando a morte
num grito de voz escura cravado de silêncios
sentinela cega num charco estranho.

Não o poupou a dor,
humilhando-o,
extinguindo-o
na solidão estagnadamente lavada
– vergonha e covardia –,
sentado nas pernas fracas formigando,
invadido de sete mil vazios
e de outros tantos medos,
soluçando na aspereza com que cobre o rosto.


8 O retorno

Ainda bem consegui deixar-me,
não quis saber, abandonei-me:
a vida já é muito difícil,
cada um com sua bactéria imponente!
(o mais perfeito e novo dos sentidos
não se me apresenta):
meneio a cabeça e esfrego a cara:
“dane-se esse otário!”

Desfaço a cena e volto adiante:


9 As horas

Outra pressa me persegue,
vive correndo
desenfreadamente
atrás de uma geografia sensitiva
em que em me perca ao revés.

Mas horas covardes
– não todas, mas as covardes –
fazem-me tropeçar no espaço-tempo-ironia.


10 O despertar

Acordei na megalópole:
se passares na minha frente
agarrar-te-ei como animal selvagem


_______


Vou comprar um relógio novo


Deveria estar vivendo
cinquenta anos atrás pelo menos.

Nunca sou moderno o suficiente,
sou sempre ridículo
(transtornos e retornos
de um pequeno menino complacente),
e essa adaptação forçada me irrita:

obrigam-me a correr
de desespero,
cruzar sinais vermelhos
(os amarelos são sempre ridículos
como eu),
capotar, voar, tremer.

E nem estou com pressa.

_______


Ampulheto


esqueço-me de escapar
do sempre

sempre me recomeço
no nunca

nunca estou
onde sempre me esqueço

_______


Afasia


Não entendo mais meu nome de perto,
perdi meu endereço, minha referência nativa.

Nem sei em que idioma desconverso.

_______


Antibiótico


1º dia

não sei o que seria de mim
se não fosse essa faca afiada
a triturar minha faringe
não me reconheceria sem essa maravilha
insuportável
que desde sempre me ajudou
a não cantar com liberdade minha tessitura
a esmorecer minha retórica
de papagaio ininterrupto:
não sou eu sem ela


2º dia

já pensou ser cantador desconhecido
ou conferencista tímido
apagado?
boa inflamação recorrente da minha vida
salvou-me!


3º dia

como não posso
na crise desse amor em brasa
pronunciar um ai que seja
- porque senão dói pra burro!
fico pateticamente a rabiscar recados
e imprecações em toalhas de papel
ou a gesticular loucamente
como mudo amador
uma porção de incompreensões ridículas


4º dia

impecável espetacular extraordinária
cronicidade crítica
cíclica
minha companheira bebe minha força
que já não é normalmente muita:
naturopatas gritam alternativos suas medicinas impondo cítricos
ralhando comigo em suas bibliografias
que teimo em folhear


5º dia

no pequeno espaço em que não sou esfaqueado
imagino limões
e laranjas
por toda parte
e até estrangulo alguns de seus ácidos


6º dia

mas – amigos – quando vem a lâmina cruel
quando seu brilho olha pra mim
dando aquela risadinha sádica
escancaro os dentes
dou um tapa na língua pegajosa
e tasco goela adentro
sem o menor remorso
o mais heróico
mais artificial
e mais transbordante de reações adversas
antibiótico
de que se tiver notícia no capitalismo alopata


último? dia

os homens-planta nunca tiveram faringite
pelo menos a minha especial nunca:
sou um capricho da natureza que não me cura

só de raiva
no ínterim
canto e falo direto

_______


Soneto microscópico ou Onze


Posso
contar
as paixões
que tive

nos
dedos
com que faço
arte.


Quantas
moléculas
haverá

nestas
hastes
úteis?

_______


Incorrigível


Não quero nem saber, faço tudo pela paz!

Desafio tormentas, vociferação de gigantes,
rasgo os nervos da guerra, chovo na secura,
afio a verdade da faca na mentira da pedra.

Depois me viro em dois do avesso
e me penduro pelas partes antigas
nos cordéis de uma feira de rua.

Exponho vísceras e o que penso.

E o choro preso de costume,
em meio a outros gritadores,
apregoo
para ver se alguém me compra.

Ah! para quem me levar
vai junto o meu triunfante equilíbrio
(hic!)
como brinde.

_______


Raro


Meu dia mal começa a gorjear sua música branda
e as janelas já se esmeram a dançar as asas frescas
e ígneas do minuto amarelo.

Tudo
(e é sempre bem mais que tudo quando olho para fora)
mergulha-me num fôlego incompreensível,
que não tem havido muito na vida dura.

Eu, que não sou bobo nem nada, aproveito o momento:
embrulho o jovem sol com a cortina
e deito a cabeça num verso branco
pra dormir tranquilo.

_______


O suicídio do homem-sombra


Vou saltar, distorcem-me.
Vivo colado às paredes, só cresço no chão.

Não caibo em mim.

Precipitar-se assim de arranha-céus nem é tão perigoso,
posso morrer sem medo.

_______


Carótidas teimosas


Choveram aptidões do abismo
e agarrei algumas.

Mas faltando pedaço.

Minhas carótidas pisam caminhos rudes
no vão do pescoço,
e, tateando naquele escuro vermelho,
marcham obstinadas rumo à grande cabeça vazia.

A minha boca é a que subsiste
bebendo túneis.

_______


Cercania


Geralmente sonho que estou sonhando.

Quando vou meio longe
é normal me perder entre os dedos
dos medos
que possa ter de minhas caras feias
e do escuro.

Não adianta:
quando alguém me descobre
acabo voltando de mãos dadas comigo.

Por coisas como essa
gosto de dormir perto de mim.
.

Mais de um

.
.
Contornus


Tua pétala
de perfume fervido
em calor
refrescante

tem textura de miragem
em rerrenascença
(ai meu tato perfeito de cego!)

hoje não sei ver nada
sem te ver desenhada
na memória
que eu gosto

_______


Tão somente lúcido


Tudo reflete contentamento,
tudo sou eu,
tudo é você,
tudo é humano.

Tudo são todos que seremos,
espelhos que se olham de soslaio,
objetos mútuos.

A poeira estirada ao chão
é caspa do mundo;
meu rosto cósmico,
cosmopolita,
polido e translúcido
reflete no teu aço fácil
o ácido que traduz-me
lúcido por um instante.

Não entendo direito,
mas é sabido que ninguém
jamais viu
os próprios olhos
frente a frente,
olhos na carne.

Ninguém viu.
Nem me te esqueci nunca mais.

_______


Léxicos

A)

Caminhando pela vida reparo seres e coisas.
Dia desses, passando pela rua,
vi uma palavra olhando-me como filhote indefeso.

Peguei-a com carinho,
mas ela me mordeu.

É preciso ter cuidado com as palavras

Bê)

Para que todos os poetas-aves
possam levemente alcançar o vocábulo que os traduzam,
o faro de encontrar-se,
o vento vai soprando.

Voando, não voando,
poetando, vagabundeando,
vamos fazendo
o que se pode fazer.

Cê)

Descubro a cada dia
mais palavras de amor
e escalas de amar

Dê)

Tempo sim, tempo não,
arranco a palavra de vez, a fruta poética:
mastigo-as com casca
(palavras têm casca),
que nela se encontra o melhor nutriente.

E)

Já usaram e abusaram das conotações
ordinárias que eu conhecia
e da minha paciência.

Pus-me mudo na ventania:
assim grito mais fortemente os sinais que restaram.

Efe)

Palavras escolhem o método de despegar
as emoções que me fabricam.
Aperfeiçoam-se e não me aperfeiçoam,
repartem-se em neologismos
só de pirraça em ver-me desbaratar.

Tolice compreendê-las todas
claro,
pois que muitas vezes também não entendo
o que quer dos meus dias cinzas
o dia
claro.

Gê)

Desescuto-me naquele momento
entre a palavra
e a boca.

Agá)

Como não poderia deixar de ser,
fecho os olhos ao espirrar.

Ao espirrar tinta.

I)

Leio tua rouca e fêmea fala um pouco,
hipnotizados beberemo-nos;
mata-se a sede em monossílabos
tônicos, como tônico.

Silabadas
átonas à tona
com um prazer acentuado
de tamanhos.

Jota)

Capítulo de seres
impressos, manuscritos ou de luz fina,
feche os olhos
e leia-se do milhão de termos
de cada língua solta no mundo.

Que retiro da tua boca
a atitude do meu dia indolente
e a dissolvo nas sujidades
de minha caligrafeia.

Cá)

Dito para mim umas palavras estranhas
entre as entranhas verbais
de cada asserto.

Há mais erros que acertos.

_______


Tu, oxigênio


Respirar-te-ei por aí
não mais pela metade,
como esponja colabada
de fuligem,

Mas tranquilo, com pulmões fortes,
de abdome e intenção e nariz
para o alto,
decidido da vida.

Só aprendi a transpirar aos dezoito.

_______


Paisagem ambígua


molharei teu mar
queimarei teu sol
na tela naïf que pintar

(de ti)

_______


Sou então teu copo d´água


venta tudo o que tens pra dizer
chove tudo o que tens pra chorar

mas depois chama o tempo bom
para de dizer
para de chorar
querida tempestade.

_______


Pueril


Vem inundar comigo
esse chão farto de poeira futura
com jorros de água bebível a empurrar
tudo o que virá,
o que ainda cairá descamando: paredes,
peles, desvontades da moda,
do milênio novo.

Vem empurrar desconexões para o ralo
(no espelho d’água
já vemos o teto branco
imitando as maneiras do ralo).

Uns clarões infantis
metralham minha possível madureza:
sinto nas valas dos pés
a dilacerante refrescância da cerâmica
vermelha molhada na varanda
dos dias puros.

Nos olhos rotos de sede
a hora rasa
de um reflexo inspirado de sol.

_______


Ardentes


quando os maçaricos incolores
acendem nos pescoços a fadiga
das glândulas
e os odores ricos do mormaço,
virilhas, axilas, tudo derrete
na acidez do tropel.

E um círculo de urubus ébrios,
fétidos,
inimagináveis,
desaba naquilo.

Muita pena,
muita pena.

_______


Até hoje


(quando o dia era fácil
sabia somente brincar de rua
queimando a cabeça no sol
gelando o suadouro na lua)

como seria mudar de casa?
sentiria nostalgia da alugada era?
lá à vontade sorri sonhei
claro
chorei
(como quando Pepito se foi)
lá recebi vários apelidos da maldade inocente
que doeram
até hoje

no meu quarto
de século afinal
viajamos o teto para a novidade
(céu trasladado)

percebi que pouco ou nada
ficou diferente

não sofri desde agora

nossa casa é onde estão nossas coisas
e nossas estrelas
onde instalamos
arquitetonicamente
nossos amores

_______


Q-brado


de mim
cato os cacos que caem nos cantos da casa
quando não estás

_______


Máquina de ferrugem doce


Otimamente excelente, você...
de-vez-em-quando-quase-nunca.

Quando põe pra funcionar a endorfinada vida,
somente assim.

Deixe de parafrasear minha frase feita,
basta de diluviar-me
com essa poça espessa e marrom-metálica.

É aí que a amo.

_______


Perdão ou o nexo de sentir


se chorares
beberei de tua lágrima meu veneno

humildemente

matarei a sede
que tenho de mim
depois de morrer contigo

_______


Esquisito


universalmente
aqui no peito
guardo você do futuro em diante

free dom

apesar de tudo
a penar nas amarras

decerto isto é complicado:
poder e não poder
(vaidades do instinto selvagem
e de outros inumeráveis vícios lícitos)

nem é difícil entender
essas esquisitices:
há horas
em que somos nós mesmo(s)

_______


Composto


velhas novas lembranças
esquecem-se
de acordar
se durmo no teu colo manso

nada importa mais
que o descanso do tempo
na tua paz úmida
de mulher

_______


Leal

i

choveu desvio
nem vi
o que vinha se formando

pisei em tudo
atrapalhado
resvalei o beijo

desamarro agora
cadarços molhados
no lamaçal potável


ii

tenho visto peles
pelos carnes olhos bocas
passarem por mim

percepções despidas
contradizem-se
negam-se ao acordo

à regra velha parida
saio do corpo
em detrimento da queda

_______


Pirilampos relâmpagos


nem mesmo
as grossas camadas
da dor do amor
ou dos adeuses
podem com nossa vontade
vadia

nosso entendimento
infesta-se
da incandescência
latejante
(como deve ser mesmo a vida)
e voamos:

somos
não somos
somos
não somos
somos
não somos

e assim vamos

_______


Atentado


quero explodir
de amor
em você

_______


Marulhos

i

tropeço pelos dias aquáticos
cego
por teu nado de fêmea
e vou vendo além

minha língua líquida adoça
logo
quando pupilas aperfeiçoadas
lágrimas me lanças

(qual pesqueiro
cruzando meus lampejos extasiados
subindo e descendo
uns azuis e brancos e verdes
vão ao destino que tu és
estão indo
e foram-se pequenas ondas
levitadas do resumo do vento)

planejo uma fuga
perfeita
mas meu corpo é teu
perco-me no degrau do horizonte


ii

todo dia removível em que remergulho
no teu corpo
mar solene
é teimoso e doido
doído
vou fundo (é que guinei demais a proa)
que é pra soltar da pele uns medos
de tudo
de tuas águas feminis bebi sempre
um pouco de cada alga cada semente
de muita semântica marinha
tuas palavras-silêncios-esponjas
e passei rente a teu intento
quase adivinhando um beijo transbordante


iii

certa ocasião
nessas águas quentes do Brasil
uns peixes verdes espiavam-me curiosos
por debaixo de meus cotovelos

quando pude vê-los direito
eram sereias mais lindas do que verdes
e perguntaram-me as horas que eu tive

mas meu pulso havia parado

perdi-me então (no fundo) e elas
deram-me de comer sopa de algas
com gosto de espinafre e queijo
um beijo com sabor de oxigênio
e reconforto de quentura e na ternura
pude ver mais do que direito
que as sereias eram você

e sereias nem sequer existem

existem?!


iv

assim que avistei teu barco
quis ensinar-te
o que nem havia aprendido
do mar e o mar é lindo:
nós laços levantar de vela
quis logo mergulhar contigo
na indizível profundeza
em refrescância
e nadar invisível
e ir e ir com o alegre vento
de dentro
amarrado a ti assim indo

clareza não tem segredo
luz para o desejo-atol
lúmen e nácar
amor claro de pérola
farol a socorrer a tempo o tempo
nosso lugar perdido
na densidade
das reminiscências

amor claro
desatando negrume

e nós marinhos

_______


Caninos

i

vou atrás de ti
minha dona
feito um cão
vou fungando teus passos

tuas impressões feitas de cheiro
lambo arranho
mordo
como o cão amigo brinca de morder


ii

agora uma espécie entre os lobos
esfomeados esbugalhados sedentos
de selvageria rio de acompanhar
o instinto desesperado da presa

lanço no rasgo quente loucos
dentes agudíssimos de relento
tento mas não consigo parar
de dilacerar tua fêmea defesa

_______


Sensorial ou o pouco tempo que nos resta


para
de
se
enervar
comigo
“olha
a
hora
olha
a
hora”

Além do mais

.
.
Recíproco


em traduzir a índole
do sangue: o rosto
fumegante exógeno banido:
coisa melhor que viver
é ter-se atrás da pele
um desnexo
o truque reflexivo
de regurgitar a si mesmo:

em dissuadir o esforço ido
vou-me entregando
à submersão de latitude
é o que faço - é assim
que disfarço o disfarce
erros à parte
em riso ou triste
ainda bem
que a arte me existe

e me insiste

_______


Mr Street


inventa-se um poeta
como se inventa o dia-cheio de fome
e sede de toda espécie
humana
de expressão de arte ingênua de rua
de beijo de querência de encontro
ou de qualquer que seja o tipo
de escorregadio equilíbrio

há vezes (e são muitas)
em que ele se inventa mesmo é chorando

não sei
se lapido sintaxes
para agradar os denotativos transeuntes
(da terra exata)
ou se me torno o tolo
que sempre fui
com o pé no passo do piche em chamas
cuspindo no caminho que leva longe

ele nem sabe se quer ir longe

atando-se a tolices de rua, rua que leva longe
ou a liberdades de céu, céu que leva longe
ele nem sabe, nem sabe se quer ir longe

_______


Força de vontade


como há futili(mal)dade
no mundo
quanta sordidez
invenções de desinventores

equívocos
intencionais

na obsolescência do planeta
viajam
entretanto
alguns puros:

aqueles que não querem ficar
na vontade

os que têm vontade
de ficar à vontade
pra ter sempre vontade

por estes persevera a vida?

_______


Quieto


ao contrário do que dizem muitos
há cada dia menos gente

toda a história pressiona a humanidade
para um próximo instante
que definitivamente não existe:
o futuro volta ao passado
e a gente acaba indo sozinho

o tempo não passa (por nós)

o que passa são as coisas
as idiossincrasias
a ruga fundamental que nos espeta
os tipos sanguíneos

o tempo anda parado

_______


Weiss

i


desço a gigantesca escadaria de mármore
de um polimento inacreditável

vou cada vez mais fundo


ii

mais e mais fundo


iii

no fundo
todo mundo quer ir







fundo

_______


timo


esmurro o timo estrebucho a dialética esquelética desin(feto) a última morada do que fomos feitos casulo jaula interesseira ensina voo na clausura paz soltura dos dias vãos vão-se fazendo trôpegos os sábios eia colisão frenética liberdade ética hermética solidão elétrica asa bélica

eu
não
aguento
essa dor no peito

_______


e lá se vão as noções


leio os primeiros últimos poemas
que ganhei do feriado da guerra branca

branca também é a mesa
em que apoio o sonho neutro
e as mãos de ferro fundido

olho as horas e as outras idades do tempo

passo a escrever no chão azul
as estrelas que nem enxergo
(é imenso o guarda-chuva aberto
sobre minha cabeça aberta)

_______


Casa três


lembro-me tão bem
e o real é tamanho
que estou lá agora
chego a ter os pés sujos
de terra fina
terra preta crosta fina esbranquiçada
é tão claro
que estou lá e fico
no quintal de Maria
jameloeiro a jameloar horas ingênuas
tantos voos lançados tontos
no balanço

toscos o brinquedo e eu
em cada subida semicircular
agarro um ar mais mágico
e brota naquele mundo
instantâneo
o chapiscar do sol nos verdes todos
nova pátria
luzes verdes na verde
imensidão a que assisto
no pequeno espaço
em gargalhadas e quase-choro
de nostalgia
marca cúmplice de décadas

_______


Sashimi


não chorar
me ajuda a entender
como os peixes
são
por dentro

_______


Sônico


agora amor amores
são contíguos muitos sons
a poesia afina nossa orquestra oscilatória:
somos primeiros e segundos violinos
na intrínseca e aprazível velha noite a nos cantar

veja a melodia
cheire a melodia
esbarre nela
coma-a

sonhe-a

que a era solitária
era a própria multidão de nós mormente
e hoje colecionamos estrondos feios
e algumas poucas músicas
de ninar-nos

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Homem discutindo a relação


viajo e trepido estranho
minha cara
na abertura de teus lábios claros
e na fluência de teu idioma raro

lá moram as lendas
os termos
os contratos

muito a celebrar
nas noites de insônia
se se conseguir despertar

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Neo-sanguíneo


i

as teias das horas:
hélices a rodar tapas nas faces fracas

ii

não são as lascas do sol rastejante
que nos faz corar
mas as pancadas
de mão aberta cortada
por faca que tem cabo de gumes

iii

se há ciúmes no tempo
sobrevivo nas feridas distantes
e em nossos medos espalhados
pelos vidros da casa

iv

a luz rasa que chegara há pouco
acabou por fugir
de minhas veias

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Com os pés na cabeça


entreguei-me a trabalhos forçados
para ser liberto

quantas vezes mais fugirei de minha fuga
e perseguirei a mim mesmo?

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Noturnos


o destino
não tem jeito
é desenhá-las no ar
fazendo círculos com as mãos

é como se tocasse
um piano esvoaçante
nos movimentos arbitrários da noite:
os dedos tremulam
as cabeças acompanham toda a dança:
os que amam são nuvem de mariposas

buscam muitas direções
disputando o solstício das lâmpadas
e essa distância somos todos
e nossas vontades de luz

meus dedos às vezes
conclamam uma reunião urgente:
vem
acalma-te
descansa
nas minhas mãos em concha

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Quintas grandezas


todo mundo
mora
na sua própria natureza

mas quantas e tais e mais
estrelas
não quereriam amar
despir-se
de luz
depois descer
e vestir-se de necessidades
(por serem tantas)
e imitar-nos aqui
no chão do Brasil?

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Relevo o relevo


venha em paz
ciclo invertido
metamorfosear-me
a evolução
a cor dos metais

minha tez
de ferro e estanho

moldados nos tímpanos
estão as letras
e o som dos aniversários

amasse mais
minha cara
de tudo
do a ao xis ou ípsilon
da planta metálica à palavra nova
em folha

como folha-de-flandres

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Transcurso


i

neologismos guturais vinha latindo por aí

um operário de letras
embriagado
de purezas meio animal conotativo
eis o que queria ser

ii

mas fabrico realidades
no meu tempo livre
e as vou colecionando

pois agora sei
que o que é palpável não existe:
a vida real vive na morte
a morte irreal morre na vida

iii

no sentido de existir
vou catar haveres
de meu computador impessoal

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Mascarágua


claridades
vão me apagando
os olhos
a boca
os cabelos internos

preciso estar inteiro
na minha dissolução

o tempo empresta as mãos
ao trabalho árduo
e faz com que me esconda
entre os dentes da cabeça
no espaço entre a língua
e o movimento do queixo

dentro do sangue
que escorre na saliva

posso fazer sempre o mesmo
mas nunca sou o mesmo

iludo como um rio ilude

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Minha nudez é cega


é no constrangimento das coisas
que me dispo

dispo-me dos fatos puídos deixo-os
cair no sumidouro frio
em que meus pés se apoiam
(invento naquele assombro
um pseudônimo do meu próprio nome
que venho esquecendo)

desmaio nas lutas:
dispo-me da psique provisória
no nexo que às vezes penso
- sem trégua
dispo-me do suplício
superalimentador de ego
e de autocomiseração parasita
com nojo
dispo-me do entusiasmo
com que entulho entrelinhas em poemas lacônicos

de novas lutas não se levanta:
saio para a rua e já volto a casa
minguado de torcicolos
para que ninguém me veja
nem os espelhos do meu quarto
me reviram ou revisitaram

antes sou Carl Gustav num grito a Sigmund:
- dois terços para Perséfone!
depois visto-me
sem vergonha
diante de minha imperceptível
san(t)idade

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Possibilidades de um clichê sem voz


E “O sol nasce para todos”.

O rei cega quem mais deseja mirar-lhe o rosto,
somente os que não veem podem vê-lo
neste meio-dia inextinguível.

Tenho visto cegos na luz,
e eles me dizem que veem claro,
não escuro.

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Oicíni od mif


Três, vou me desligar agora,
ver se deito a lâmpada, se limpo o carvão.
Arrancar-me-ei da energia como raio,
positivamente negativo;
das deliberações do acaso, mais que o ocaso
arrancarei às seis (tenho de fazê-lo!)

Dois, meus relógios digitais brincam
com os de ponteiros à minha frente,
mas nem os vejo correndo, pululando
sem parar, crianças que não crescem.
Pois giro ao contrário com sentido,
e sem sentido às vezes continuo
em ver palavras impronunciáveis,
não horas, mas letras confusas:
tenho andado agora anti-horário.

Um, descansemos,
que somos todos velhos conhecidos,
piscando olhos inevitáveis,
brindando pupilas cínicas,
aturdidos tonteando firmemente,
nus de embaçamento interior, mas indo,
desrindo e rindo com os braços
perdidos na cabeça
até as manhãs, um esforço de internauta.

Zero, rabisco um bocejo irresistível no ar,
traduzo um até-breve.

Um sem-fim em dedicatória e/ou agradecimentos

.
a Deus YHWH, acima de todos, Poeta Maior em Jesus, o Cristo, Autor de minha Fé, a quem, errante como sou - mas esperançoso -, entrego minha alma;

a Valéria, minha ex-mulher e mãe de meus filhos, pelo empenho e força literária;
a Marianna, querida filha-flor, pelo amor e amizade desmedidos e puros, assim como a nosso novo neném, Fabbio Gabriel;
a minha menina-mãe, Shirley, pelo apoio e dedicação absurdos e relacionamento liberal de irmã – momento em que aproveito para beijar-lhe as mãos em amor irrestrito e incomensurável;
a meu bondoso pai, Jonaldo (Pepito), ser extraordinário, em memória com amor indizível, com sorriso doce emoldurado de saudade perene;
a minha única e guerreira irmã, Fátima (Maninha), juntamente a meus sobrinhos, Julianne e Lucas;
a tia Wilma, minha segunda mãe, mulher espetacular, defensora irrepreensível da paz; e a tio Ludolpho, ser de pureza e honestidade inacreditáveis - e sua família -, por serem muito mais do que tios, pois que com eles fui criado;
a minhas tias paternas, Ilza, Nely, Delcy, Graciete, Leomar e Olinda;
a meus inumeráveis primos e primas de todos os graus, em especial a Dilma, Amauri e Willian;

a meus prezadíssimos amigos - para representá-los, principalmente:
a Edivar (caro Little-boy), companheiro de sim e de não; e Carlos Eduardo (nosso ilustre pós-Doutor em Literatura, mas para mim sempre “Carlinhos”, meu mais presente amigo de infância) – estes, como se fossem meus irmãos;

a Lairton Ramos, Mário Mahomed, Deise Pereira, Vicente Fonseca, Carlos Asicq, Edmar Gomes, Roberto Menezes, Moisés Vicentino, João Edson, Mário Araújo, André Medella, Luiz Corrêa, Arlindo Costa, Rafael Paar, M. Alvarenga, A.C. de Souza, Alexandre Martins, Robson Moratelli, Oswaldo Fernandes, Cláudio Mendonça, Alex Mattos, Carlos Carmelo, José Augusto, J. Carlos Dias, Marcelo Miguel, Odebran, Oltem, Cláudio Luiz, Itacy dos Anjos, J. Ataídes, André Nunes, Paulo R. Guimarães, Luiz Cláudio Carvalho, Severino “Bill”, Glauber B. Rocha, Pedro Danter, Robson Jacques... (definitivamente não há como listar todos...), colegas e conhecidos de percurso que se tornaram grandes amigos;
a Mecso, pelos versos intermináveis no vento;
aos futuros amigos, que, com certeza, hei de encontrar;
a outras tantas pessoas de que não me recordei (momentaneamente) na entrega dos originais para a edição deste livro, minhas mais humildes desculpas.

(Fosse eu mais puro, dedicaria esta obra, por ser minha primeira publicada, logo a todos os seres humanos dos tempos “descalendáricos” da Terra, concordantes ou não comigo; ofertaria aos empáticos, mas também aos apáticos e aos lunáticos, o público cativo de si mesmos - pois que somos, afinal, compreendamos ou não, todos da mesma gigantesca família humana. Como a pureza, entretanto, vai-se diluindo com a vida rude, prefiro deixar aqui registrado somente os humanos mais próximos e mais humanos comigo).