Registrado em nome de Fabbio Cortez

UM CONTO DE MECSO
(Um pseudônimo menos ortodoxo de Fabbio Cortez - utilizado apenas neste site)

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O Casarão




1. No Bar ao Meio-Dia


    Não preciso de nada difícil para me perder de mim, tornar-me abstrato. Tudo piora, sabe-se, com drinques misturados a psicotrópicos, e, de carro, não dá para facilitar, o resto de lucidez pode se apagar na estrada. Água com gás estava de bom tamanho, sim, com limão, por favor, respondi ao atendente. Uma mulher, digamos, peculiar, sentou-se a meu lado ao balcão, pediu algo, sorriu leve, disse seu nome, prazer. Retruquei com o meu, forçando um oi educado. Olhe, nome bonito, parece mesmo com você, sussurrou-me. Com o semidesprezo, a pobre senhora disfarçou como pôde, engoliu a bebidinha dela, proferiu seu tchau constrangido e se foi, coitada. Naquele momento eu queria pensar em paz sobre o que faria dali a pouco. A casa fechada de minha família ficava na mesma calçada do bar. Tinha de ir lá e verificar a situação do local fosse como fosse, atravessara a cidade para isso. Um remorso súbito quase me fez ir atrás da tal mulher, pedir-lhe desculpa. Afinal, ninguém é melhor que ninguém, e, diga-se de passagem, estranheza por estranheza, não deixo a desejar. Não, não fui. Pensar naquele ser humano fez-me mudar de ideia, um uísque com gelo, ah, que se lasque, pensei, uma dose só. Cerca de uma hora e meia depois eu me encontrava arrasado, jurara a mim próprio não beber e bebera. Não fora pouco, um copo puxa outro, jurar não vale nada. O botequim elegante apostava em bossa-nova e jazz ligeiros. As pessoas normais almoçando em restaurantes do entorno e eu, zonzo, com o cafezinho corrido da manhã e dois acanhados pastéis de carne moída gourmet boiando no álcool inconsequente. Óbvio, já não me sentia bem, a cabeça degringolara.



2. Continuum - Brevíssimo Capítulo para Catarse


2.1. O sobrado não era apenas cimento e tijolo, mas um mapa inventariado de meu juízo complexo. Nasci nele. Quer dizer, fui direto da maternidade para lá. Papai de fato viera à luz no local, de parteira. Diante da ausência peremptória de meus pais, a mim caberia resolver a questão daquele patrimônio, filho único, vender talvez, que preguiça.

2.2. Abri o portão social, depois a suntuosa porta da varanda. Torto de ebriedade penetrei na sala. Paredes descascadas, a parte ainda boa numas nuances anêmicas. Coladas nelas todas as conversas antigas e muito antigas, desde antes de eu vir ao mundo mau; diálogos e monólogos concluídos e os deixados para lá, conversas cordatas, felizes, afáveis, à toa; também as discussões idiotas infinitas desencadeadas de implicâncias e rixas sem motivo, e as brigas bravas aos gritos, com ofensas imperdoáveis que acabamos perdoando por amor. E assim vai.

2.3. Aquele lugar estava dentro de mim. Algumas casas moram em nós, pessoas também. Somos logradouros e números. Um cheiro de decadência prevalecia ali, meio de mofo, mas não era bem de mofo, sugeria mais o odor de tempo estancado e das idiossincrasias de um ar muito respirado, depressivo, que perdera o ânimo de circular. A simples caminhada da sala à cozinha foi um exercício e tanto, uma espécie de arqueologia de todas as emoções carcomidas no peito a acordar a cada passo uma porção de espectros nervosos. O corredor, com o soalho desses antigos que rangem hipnotizando, me levava. Entre a pia e onde outrora se estabelecera o fogão vivia a culpa pelas palavras duras lançadas por mim em hora de fúria adolescente a meu pai. Todas as tristes frases não lembro, porém o tom, a labareda na voz, os gestos inflamados, tudo está aqui, arregaçando, torrando por dentro o pescoço, sem sangue, com um nó duro, seco, papai não merecia; eu pedira perdão chorando, perdoou-me, mas eu não me perdoaria completamente. Eu viria a justificar-me por qualquer loucura; pelas atrozes palavras a meu pai, em tempo algum. Até hoje me vêm à memória Adiós Nonino e The Long and Winding Road, intercalando-se a me trucidar. Fazer o quê? Administrar a respiração, enxugar os olhos. É seguir. Debaixo da tal pia morava minha vontade sufocada de ser aquele tipo de gente que não precisa implorar licença para levar a vida como lhe apraz. Simplesmente subsistir e levar a vida.

2.4. Voltei lento à sala e me pus de frente à janela. Colossal, esticava-se na parede comprida e ia quase até o chão. Os vidros, por fora embaçados de poeira grossa e por dentro forrados de jornal, desestimularam-me, desisti de tentar focar algo exterior, qualquer cena, o fluir dos carros ou a pressa do cotidiano. Tudo parecia ficção, um roteiro hermético que me exigia representar bem um papel nem decorado direito. A memória nebulosa, eu precisando olhar para dentro, notei o pó dançando em um feixe de luz vindo de uma fresta nas notícias amareladas. Aqueles quase invisíveis serezinhos de poeira ancestral eram como os pensamentos a me invadir, desnorteados, caóticos, suspensos por um vazio buscando imitar rotinas remotas. Caso ousasse apanhá-los, desapareceriam, desprezando-me, como eu fizera comigo mesmo tantas vezes e com a mulher do bar. Vinguei-me: ignorei o pó dançarino do ar, mas, igualmente a mim, ele continuou seu instinto aleatório.

2.5. Um incômodo girava em torno de minha cabeça, havia um turbilhão onde todas as ideias que me compõem se esbarravam sem reconhecerem umas às outras. Sempre variei as ideias. Um livro de psicologia de meu pai tratava disso, não sei bem, simultaneidade crudelíssima onde eu de sete anos, berrando pelo joelho ralado no calçamento de pedras lateral, coexistia com o cidadão adulto, com ferimentos invisíveis e assim incuráveis. Água e sal jamais conseguiriam mitigar o dano. Uma tia minha, quando eu era bem pequeno, dissera que água com sal curava qualquer arranhadela ou esfoladura. Ela fez a poção e jogou no problema sem avisar. Eu me contorcia com o ardor conotativo das duas peles. Sentia as mãos firmes de minha mãe nos ombros. Ela não me afagava, sem querer continha-me. A cura foi rápida mesmo, mas com a casa vazia por anos eu não poderia imaginar que a pressão se mantivesse tão violenta, lembrança tátil da topografia de um afeto que sempre me impediria de fazer correrem alegres e destemidos os sonhos e impulsos; isso me plantara num sofrimento familiar e de algum modo me punha seguro. Temos a mania de estar em segurança e nunca a teremos.

2.6. O sobrado também sofria de várias manias; por exemplo, a porta de meu quarto somente trancava se fosse empurrada com o lado do corpo num ângulo específico, com certa força. Eu me trancava fácil e o faço até hoje. Tinha de usar o sanitário e lembrei que a torneira do banheiro social pingava em código Morse, gritando socorro: três pingos, uma pausa, três fios d'água lentos, outra pausa, mais três gotas. Só então cessava. Nunca consertaram aquilo, afinal o pedido de ajuda fora sempre irreal, ela brincava, tanto que parava logo. Peço socorro mudo até hoje, sem brincadeira. A casa provava que apesar de tudo algo ali insistia em ritmar a vida.

2.7. Eu me perguntava se seria mais feliz se parasse de arrazoar em excesso. A fim de desopilar, suspirei e acabei deixando escapar um palavrão, mas desses que não machucam ninguém. Este ricocheteou no teto e voltou a mim. Ri do nada, alto; invadiu-me, em vez de alívio, uma exaustão metafísica, o riso rira de mim por ter passado a vida bolando fachadas, crassa bobagem. Um sujeito exemplar para a vizinhança, bom aluno, filho dando orgulho, funcionário quase perfeito. Sei. Tudo tapumes a esconder um canteiro de obras em abandono, sacos de cimento empedrados, vergalhões se desfazendo de ferrugem.

2.8. Sentei-me no chão, sentindo a frieza e a sujidade do piso hidráulico me atravessarem a alma. Seu padrão de desenho era um labirinto feioso, e agora desbotado, mais rude. O intrincamento dele, pior que as expectativas de meus pais incrustadas em silêncio desde pequeno em minha psique. Nem o julgamento dos vizinhos, que mediam nossa vida por qualquer altercação, era tão difícil de digerir. Meu sangue bateu nas têmporas e me veio a percepção de que a liberdade era simplesmente sair pela porta, e quase nunca estivera nas vezes em que esta fora fechada com violência, trepidando a maçaneta dourada. Eu não saíra de mim, porém. O fácil difícil. Liberdade autêntica não poderia ser apenas geográfica, refleti.

2.9. Surpreendeu-me um som seco, um estalo vindo das paredes ou da estrutura de um osso meu se ajustando. Partículas de angústia perturbavam. Não as deixei pousar em mim, soprei-as sobre os móveis inexistentes, desceram à pele do chão. Minha bússola interior ditava uns silêncios de lonjura e pude perceber não ter de entender todos os meus eus para saber existir ou aonde ir. Sentir meu vazio como é o vazio de todo mundo bastava, era somente não cair nele. Muitos caem. Confundem-no com aconchego, no frio, como quando alguém em quem não confiamos desocupa a cama e de imediato nos esticamos no lugar, ou quando nos tornamos ínfimos, a ponto de caber na gaveta dos cobertores. Pseudoautodisciplina e prostração por não poder preencher coisa alguma.

2.10. A vida ostenta seus muitos minutos e cisma em deixar por menos décadas a fio. Nunca mais eu ficaria contando o tempo, obsessivo. Somente notaria ser dia pela tal mudança de tom da poeira dançarina, de prata pálida a ouro histérico. Ademais, passaria a deixar de catalogar o leque dos ruídos, os da casa e os vindos de mim, madeiramento dilatando às três da tarde, sol pesado, ou juntas noturnas gemendo, ratos saindo de seus esconderijos infalíveis, lembrança do som do gás encanado e sua fluência na parede, zumbidos amedrontadores da torpe e potente geladeira a ofegar. Um organismo, um sistema, o casarão. Não o deixaria em paz, sempre quis estar em paz e jamais consegui. Ele-eu debatia-se-me, talvez tudo tivesse sido apenas um sonho malfazejo que tivéramos durante uma febre que passara célere.

2.11. Papai me dissera ter uma casa a necessidade de alicerces fortes, porém não me informara precisar disso as pessoas também. Entendi errado, o concreto secou em mim no âmago e o pôs rígido, eu incapaz de flexibilizar sem quebrar. Meditando nisso senti uma fome de pedreiro, não a da barriga, a de significar. Tentei me erguer e não pude, formigava demais dos joelhos para baixo. Comecei a movimentar os dedos dos pés até que devagar minhas pernas foram acordando. Ainda com o resto da agoniante sensação, dirigi-me aonde fora o escritório de papai. Meu nariz acusava papel envelhecido e uma solitude machista impregnada de bebidas fortes e contas e cálculos e medos escondidos. Na grande biblioteca prevalecera o livro técnico, sobre instalações, edificações, manuais de toda espécie. Mas entre estes um dia notei uma lombada dizendo trazer poemas de Fernando Pessoa. Abri sorteado e bebi o "tenho em mim todos os sonhos do mundo". Lembrar-me disso não me consolou, abalou-me. Igualmente ao heterônimo do notável português eu não poderia desejar ser nada. Tinha todos os sonhos, verdade, mas não haveria onde os guardar em segredo a fim de os reaver na hora certa. Nem sequer o fizera na infância com jardins abertos, rapaz, admoestei-me.

2.12. Os móveis, grandes em demasia para caber nos cômodos construídos dentro de mim, estorvavam-me a esperança de me soltar na almejada plenitude, disparatar em alforria pela casa com aquilo tudo atrapalhando. Mais tarde sorvi o livro inteiro, sentado à mesa de papai, hoje somente chão, as costas apoiadas na parede onde estivera a ampla estante. Pessoa no poema dizia, e diz, ser vários. Fernando, pessoa, pessoas, clichês gracejavam comigo. Também me sentia, e me sinto, assim, pessoas. E coisas. Eu era a escada, o corredor, geralmente passagem para outrem. E impermanência para mim. O multiautor me pegou pela mão, fiz-me criança infinita numa viagem fantástica.

2.13. Vida adiante viajaria ainda com muita gente interessante. Nietzsche, Whitman, Gattai, Baudelaire. E Espanca, Bandeira, Machado, Coralina. E Drummond, prezado Drummond. E outros. Viajei com Kerouac e Bukowski. E com Charrière, que não sei até hoje se mentiu muito ou pouco ou nada, mas me dera grande esperança de um dia partir os grilhões. Não nessa ordem. Com muitos mais. Li. Neles me li, viagem longa. Até os quarenta minha visão fora perfeita, agora de perto enxergo pouco, desentendo-me com os óculos, perco-os, desisti deles, não os da plêiade inspiradora, dos óculos; talvez tenha lido sem luz ou quem sabe lido mais do que deveria. Não, acho que não, li foi pouco, viajar sim, à beça. Livrarias viciantes, horas a folhear e a cheirar exemplares sortidos. E café, companheiro expresso, na cafeteria dali com mesinhas, maravilha.

2.14. Uma coisa puxa outra, lembrei os copos do bar, voltei à cozinha. Outra vez, oh, espaço importante, iniciou-se lá a ruptura. Epifania acidental. Era eu ainda menino e não lembro a razão tentava alcançar um pote de vidro na prateleira alta. óbvio, deixei-o cair. A porretada no chão foi forte, a ponto de ter sido a primeira novidade sonora na casa em anos. Estilhacei-me junto. Fora ruído portanto de quebra, susto, não acomodação. Agachei-me e catei meus cacos, inocente ainda, catar-se é a solução para todos os desmantelados. (Aproveito para fingir divertir-me em meio ao surto: "cater-se, catarse"...). Pedaços irregulares refletiam amanhãs e meu rosto em angulações inesperadas, um olho aqui, nariz ali, boca pela metade, tinha de ser, boca pela metade. Não um retrato. Trajetória. Pela primeira vez um caminho possível, sem muita expressão, mas possível. Não joguei fora os cacos, guardei-os num recipiente prateado de minha mãe.

2.15. No dia seguinte, quebrei três xícaras de propósito. Estava sozinho de novo, aproveitei. Pancadas menos drásticas, mas redentoras. Constelação de porcelana. Passei a juntar os fragmentos e o recipiente ficou cheio. Meu desejo era desaparecer com a casa tijolo a tijolo. Antes sacaria os pregos das paredes, um a um. Cada prego deixaria seu furo intransferível, sua cicatriz. Após isso, revelaria a crueza das paredes por baixo da tinta, do reboco. Então os blocos. Antes do antes arrancaria com toda a força as pesadas cortinas da sala. Destroçaria tudo, lutaria violento com a iluminação que me invadisse, apanharia dela sem chorar. Sem espanto. Sem tristeza. Com raiva, com muita raiva, louco.

2.16. O mundo exterior não seria uma ficção escrita com desleixo, seria apenas um mundo, ora, transbordando das gentes também com cicatrizes nas paredes de ser quem são, com sua anormalidade particular. Parei para tomar fôlego, pois minha mente estava como que suada, esbaforida. Qual foi minha surpresa ao descobrir ter o vasilhame dos cacos um canto falso lateral, onde encontrei uma carta, que puxei com as unhas. Letra de minha mãe. Dizia que eu não precisaria ser uma fortaleza o tempo inteiro. Poderia chorar no futuro, que desmoronar pode ser um meio de mudar, de forma, de tamanho e de pensar. Não havia data. Mamãe não tinha tempo. Morreu sem data. Mãe nem morre, fica dentro, a gente carrega eterna.

2.17. A carta era o tempo em si, minha querida mamãe viveria para mim desobedecendo a cronologias injustas. Chorei logo, um pranto sem contenção, cúmulo-nimbo que decidira cair. Rio. Molhei as letras lindas de minha linda mãe, borrei a tinta, ah, mamãe, santas palavras conspurcadas pelas lágrimas de um mundano, ignóbil e transtornado bom menino. A mensagem ficou. Guardo-a. O recipiente com os cacos de vidro e porcelana estivera num canto do jardim o tempo inteiro, no meio das folhagens. Sabia que o iria encontrar. Pus de volta a carta no vão e resoluto comecei a elaborar um mosaico no centro da sala, onde antes houvera um caro tapete. Símbolos. Somos símbolos. Desenhei com os cacos o contorno de meu corpo. Deitado, braços abertos, alternando-os punha cada pedaço em volta do corpo feito de quebras.

2.18. Fui caprichando, esmerando-me mais e mais, trabalhei com o afinco e a verdade dos artistas de rua, a poeira agora com o cargo de assentar-se entre os cacos. O silêncio dava lugar ao delicado som de vidro contra vidro, caco com caco, trilha sonora de minha reconstrução. A vizinhança começou a perceber e escancarei a janela gigante. Foi penoso, ela agarrava nos trilhos, anos sem abrir, porém permiti a invasão do vento. Quanto a mim, jamais deixara de pedir licença para existir ou adentrar a casa alheia. Respirei fundo o renovo. Concluí o mosaico, deitei-me ao lado do corpo criado, bêbado, exaurido. Carne e cacos.

2.19. Alguém clamava por importância e entendimento dentro de mim. Uns ouviam e aplaudiam, outros xingavam e vaiavam. É assim mesmo, é realmente impossível agradar a todos. Súbito, de novo um estalo. A arquitetura invisível queria falar comigo de qualquer jeito e pôr tudo em pratos limpos, aquelas paredes decrépitas eram a base de minha história e a da família, não a da vida de todo mundo com quem viesse eu a lidar dali para frente. O soalho rangendo sustentaria a memória e a poeira ampararia as iluminações não religiosas que me caíssem bem. E o vazio, o vazio amornado que tanto uns de meus eus temiam, irônico embasaria a mim, razoável, eu edificado sem arabescos desnecessários na fachada.

2.20. Levantei-me, caminhei com gana até a porta dos fundos e a abri. O corredor manteve-se ostentando sua ambiência sofisticada, olhando-me de soslaio. No quintal meu joelho ralado ainda ardia, porém não era mais um ardor perverso. A água com sal de minha tia e o toque firme de minha mãe, às vezes, fazem-me menos alheio, compreendendo-me na vida como um sujeito, uma casa e um mosaico de rupturas juntos, formando um ser integral e único, com suas dores por maus jeitos e escoriações. Lavei as mãos, o rosto, estapeei a roupa para retirar toda a poeira. Fechei bem a janela, as portas, deixando trancadas no envelhecido casarão as melhores desordens e assombrações.



3. Transtornos e Retornos de um Menino Complacente e a Plausibilidade de um Epílogo


    Voltei ao bar. Passava das duas da madrugada, a atmosfera mudara. Fumaça de cigarro dominando, Billie Holiday espargia Gloomy Sunday. A voz de metal e melancolia exigia desalento. Mas preferi amortecer o novo tombo interno. Talvez todas aquelas horas tivessem sido mais uma alucinação. As expressões infelizes arremessadas a meu pai, irredimíveis. Fora isso, perdoar-me pela existência até então desperdiçada era questão de honra. Diante de tudo e de todos, naquela taberna e na vida, perdoei-me. Perdoei-me e bebi mais. Pessoa e seus heterônimos desculpariam meus equívocos. Bukowski, que sei me achar um otário certinho, olharia assim, assim, iria me mandar docemente para aquele lugar, mas acabaria me ofertando seu santo indulto de ébrio. Todos os seres humanos viriam a me perdoar, principalmente os transtornados. Os escritores e poetas lidos e relidos por mim, perdoadores cada qual a seu estilo, iriam me aconselhar com certeza a me jogar à vida, que é curta. Amizade inveterada, empatia, cumplicidade, ainda que desconheçam ser meus amigos. Sou grande amigo deles, é o que importa. Do peito. Das viagens. Das construções internas. Mais uma vez pedi desculpa em silêncio também à pobre senhora que elogiara meu nome. Eu fora cruel. Claro, isso é pouco se comparado às injustiças e aos erros humanos de ontem e amanhã. Dizem que de boa intenção o inferno está cheio, e desde novo eu rejeitara a ideia, não pode ser assim, havendo outro inferno pior que este em que vivemos ou não. Bons e maus são do mal e do bem. Naquele momento, entretanto, meu ridículo dilema externo consistia no bairro rico de perigos, em não haver trazido a chave do portão grande do casarão e em estar o seguro do carro justamente no vácuo da cobertura. O dono do bar morava ali ao lado e viu meu estado. Solidário, ofereceu-me um espaço para que eu deixasse o Corvette até o dia seguinte e pegasse um táxi.