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O mundo perfeito

  O mundo perfeito e outras ficções





Orelha do livro*

Reunindo textos ficcionais tematicamente variados, alguns de teor autobiográfico, este volume evidencia a versatilidade criativa de Fabbio Cortez.

Combinando memória e imaginação, aproximando vida e arte, as narrativas aqui incluídas descortinam — às vezes de forma irônica — as vicissitudes do ser humano e desnudam as contingências que cercam e sufocam o homem contemporâneo, impedindo-o livremente de viver, amar e sonhar.

Leia, medite e divirta-se, prezado leitor, com as multifacetadas e valiosas criações do novo livro de Fabbio Cortez.

        *Por CARLOS EDUARDO DE ALMEIDA
        Pós-Doutor em Literatura Brasileira e Doutor
        em Literatura Comparada pela UERJ, onde leciona.
        É autor do livro "Entre o próprio e alheio:
        a construção literária da nação brasileira".





Conto que dá título ao livro:

O mundo perfeito

Eu alugava o pior quarto de uma pensão ordinária do centro da cidade, desses cômodos sujos sem banheiro dentro. Moço do interior, desprovido, queria tentar a melhoria de vida, trabalhar e talvez estudar na metrópole, além de passar um tempo a descobrir os encantos da urbe, suas luzes inextinguíveis, seu movimento e mesmo seus perigos. Obstinado, aventurei-me contra a vontade de meus pais e, com a ajuda de um conhecido da família, consegui um emprego de atendente numa vidraçaria.

No cubículo locado por mim, dois por dois e meio, somente a cama, um armário a desandar de cupim, uma mesa mínima a fazer conjunto a uma banqueta bamboleante e um lavatório menor que um palmo. O único aparato algo digno, ainda que feiamente emoldurado, era um espelho amplo, que eu conseguira no trabalho por preço promocional e pusera a servir como quadro, artifício que viesse a ludibriar meus olhos em ampliar um pouco o espaço e, simbolicamente, minha mente oprimida.

Numa noite fria, recostado na cama, depois de jantar meu prato de encomenda em meio ao triste ambiente, tive uma visão: através do espelho notei, bem no coração de seu vidro comum, um opulento salão, onde — não havia dúvida — seria parte de uma mansão onde moraria gente realizada e feliz. (Lembrei-me por um instante de O espelho do grandioso bruxo Machado. Mas não, minha história não tinha a ver com a de seu protagonista...). A questão é que, embora jamais eu tivesse acreditado nesses assuntos de mundo paralelo, acabou passando por minha cabeça atarantada poder ser o tal espelho um portal àquela outra realidade, muito melhor e mais instigante que a minha.

Vira e mexe lemos narrativas sobre espelhos mágicos. Deve haver certa graça nisso, o assunto sempre chama a atenção de algum modo; quem sabe pela ideia de autocontemplação, ou talvez por justamente dissolver um tanto do narcisismo humano. Algum bom psicanalista ou filósofo experiente que explique, se conseguir.

Bem, meditei um pouco mais a respeito e, terminando por envolver-me na insólita experiência, concluí então ser meu insignificante aparato, lá no lado rico, representado por uma imponente peça.

O cristal de lá, mais que oferecer simples representação de imagem a quem a encarasse, devia de fato ter função decorativa. Seria um apetrecho soberbo! Concebia-o com o vidro bisotado, a moldura vasta e dourada, a contribuir em aumentar a inundação de ornamentos finos ao redor. O alto grau da decoração, as sancas trabalhadas do teto, toda a tapeçaria, as esculturas em mármore raro ou em ouro balizavam minha ideia de abastança.

Assim se estabeleceria toda a casa, mas não porque pertencesse a gente rica somente; o fato é que daquele outro lado do espelho desconhecia-se a pobreza. Lá era o mundo perfeito, onde ninguém tinha a breve noção do que seria passar necessidade, fosse material, psicológica, espiritual; o sorriso não se ausentava um segundo da boca do povo. Havia fartura corriqueira, todos a alimentar-se do melhor, frequentando bem, a saúde incólume, essas coisas de mundo perfeito. Qualquer um desfilava em elegantes roupas feitas sob medida e carregava tranquilamente no corpo suas joias caras, pois não havia ladrões, furtadores, nem sequer invejosos. Não havia corruptos, corruptores ou corruptíveis; nada de pervertidos ou invertidos. Nem convencidos. Obviamente tampouco havia polícia, presídios, delegacias; nenhuma arma, fosse de fogo, branca, biológica ou psicológica, nem espíritos armados, pois todos se amavam com sinceridade uns aos outros e dividiam entre si riqueza e alegria.

Curiosamente do mundo perfeito não se podia ver o lado onde eu, mero e sofrido mortal, habitava. Entretanto, de minha parte, de quando em quando assistia às senhoras ajeitando os penteados, a maquiagem ou o decote; mas isso ocorria raramente, apenas nas festas, nos dias triviais eu ficava a observar o luxo deserto.

Aquilo confirmou meu sofrimento, não suportava mais meu pobre mundo, a vida árdua, somente de dificuldades, nada do planejado por mim ocorria. Eu era um frustrado profissional, um qualquer, estava a viver pior do que no tempo da roça. Então, como se pudesse atravessar o espelho, colei o rosto no objeto e comecei a lastimar. Acabei por cair em prantos. Chorei como criança, molhando todo o vidro. E não há espelho mágico que se preze, diante de um sofrimento desses, a não liberar um pouco de magia. Questão de comiseração: se este infeliz deseja atravessar, atravesse de uma vez.

No que chorei e solucei, gemi e lamentei, quando dei por mim, estava do lado perfeito. Enxuguei os olhos e admirei-me ao observar o outro lado não mais do jeito como via de meu cômodo. Ao contrário, o lugar era de uma pobreza agressiva, da espécie de ter teto ruindo, umidade em todas as paredes, sujidades imperando e chão de terra batida, onde dominavam insetos rastejantes.

O espelho agora não passava de uma lasca meio triangular a equilibrar-se sobre uma prateleira de ripa. Procurei pela porta e pude ver lá fora o esgoto a jazer a céu aberto, e tudo o mais era asqueroso, fétido e vil.

Ao lançar meus olhos adiante, pude observar as pessoas sofrendo, desabando pelos cantos: havia uma fome inconcebível (eu descobrira ali que jamais sentira fome, somente vontade de comer), e vi crianças mortas pela sarjeta, urubus a fazer festa.

Senti-me de tudo aquilo e caí em desespero: havia entendido o recado. Não tolerando mais nem olhar para tanta desventura, senti uma saudade doída de meu pobre mundo, ao menos lá não havia fome no sentido ruim da palavra. Encostei a boca e os olhos no pedaço de espelho e pus-me novamente a lamentar-me. Acabei outra vez em choro solto. Pranteei como criança, molhando de novo todo o vidro.

No que chorei e solucei, gemi e lamentei, ao abrir os olhos descobri-me, céus! no mesmo lugar. Pressenti ter sido sentenciado a ficar para sempre naquele mundo miserável, o mais terrível dos miseráveis mundos. Não poderia ser verdade. Eu rompera com minhas raízes a fim de crescer, apurar a vida, encontrar um caminho de brilho, pela tentação à utopia e por causa de ingenuidades malcuradas de um matuto metido a gente, caíra em desgraça. Mal ou bem eu era antes dono de uma ou outra possibilidade, podia tentar alcançar alguns degraus mais altos, por mais difícil que isso parecesse.

Agora nada.

Então outra vez encostei a boca e os olhos na lasca de espelho e pus-me a lastimar, desfazendo-me em lamúrias. Outra vez chorei como criança, molhando ainda mais efusivamente o fragmento de vidro.

Mais uma vez chorei e solucei, gemi e lamentei, e chegou um momento em que a pequena emenda de espelho, por compaixão — porque até um estilhaço de espelho falante que se preze, ainda assim fraturado, diante de tal sofrimento solta ao menos uma palavra de alento —, disse-me com voz fraca: “Caro amigo, não fique assim, há coisas que não podem ser mudadas. Perdoe-me por lhe dizer isto: não há como retroceder. Quebraram-me para ser dividido entre alguns dos casebres das redondezas. E nenhum espelho mágico quebrado, querido, restitui ninguém a seu mundo...”

Baixei a cabeça, tranquei os olhos. Teria de resignar-me. É aquilo dito por aí: eu fora feliz e não soubera valorizar o que possuía. Além do mais, como nada é de fato perfeito na vida, assim termina esta breve narrativa mágica. Mágica e trágica, imperfeita, das dolorosas, provado está nem o mundo perfeito ser perfeito... O mundo perfeito é, sim, dura e crua ilusão e...

Não, NÃO! Arrependi-me! Pegarei em vez disso a deixa da palavra “ilusão” e rearranjarei o final. Por favor, peço ao digno leitor, à paciente leitora apagar de sua mente este parágrafo e o anterior. Se quiser, apanhe uma caneta, se possível vermelha, e risque o trecho indicado!... Perdoe-me voltar atrás, mas não farei isso comigo mesmo, coitado de mim, camarada de sentimentos bons, bem-intencionado, tão moço ainda, sofrer desse jeito. Não, definitivamente: já que no momento tenho o controle sobre este breve escrito, façamos assim: não me resignei coisa nenhuma, nada disso:

Voltei, pois, à ladainha lacrimal: novamente chorei e solucei, gemi e lamentei; pranteei com força, arranquei do âmago uma energia que nem sabia possuir, todo o vigor remanescente em meu ser. E subitamente, então, despertei do pesadelo, sobressaltado e trêmulo, lavado de suor frio. Estava de volta a meu mundo! Ah, meu mundo!... na verdade nunca saíra dele. E também jamais tivera visões, somente as dispostas em sonhos.

Amanhecia e, ali, então, naquele quarto de pensão barato (cômodo simples, mas agora quase um reino, catalisador de infinitas possibilidades — o sol dera seu jeito de sorrir no local), descolei as costas do lençol úmido, mirei minhas feições refletidas em meu grande e espelho e avaliei com calma minha condição. Acabei por sorrir levemente. Depois sorri forte e relaxei, suspirei longamente e, por final, alegrei-me de fato. Lembrei-me de cada minudência do sonho e, humildemente, valorizei minha vida, minha experiência na roça e agora na cidade; apreciei assim este meu mundo, meu mundo-mundinho, mas tão perfeito, que o Criador — em Seu esmero e excelência — me presenteara como a Ele aprouvera.

Ele, o Inventor de tudo e sabedor de todas as coisas; eu, um reles inventivo, a escolher e ordenar titubeante algumas palavras, mas que ao menos pode mudar o final desta modesta narrativa, a fim de não se pôr a sofrer — na vida há mesmo tanto de ficção... — em desnecessária demasia. Afinal, ainda que esta seja uma historieta arquitetada sobre possíveis clichês e ideias rasas, de tendências lendárias e pueris, a verdade é que somos nós — homens e mulheres feitos — quem, pessoal e intransferivelmente, cada qual consciente de sua importância intrínseca, temos de optar por tornar nosso mundo o mais próximo do perfeito.

Olhei novamente o espelho, assim meio de soslaio, e tenho quase certeza de tê-lo ouvido sussurrar para mim:

— É rir ou chorar, meu caro. Viver ou ver a vida passar.


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