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Cada Dor que Anda na Rua

 

" ‘CADA DOR QUE ANDA NA RUA’ - perVersos Urbanos [...] (é) moderno, ágil, como são os sinais, os carros, os homens apressados nas ruas. Um livro que nos remete às nossas dores, mas que fala muito mais de nossas alegrias, espantos e esperanças [...] com seus poemas rápidos, objetivos, certeiros, quase em flashes, que nos direcionam a esse cotidiano antipoético que quase nos proíbe de ver a beleza espalhada por aí. [...] Livro [...] criativo e, principalmente, repleto de uma poesia contemporânea, com muito a nos dizer.”
Tanussi Cardoso
Crítico literário, jornalista e poeta contemporâneo

Introdução


Publicado em um dos maiores sites de literatura da América Latina – Blocos Online –, considerado um dos portais culturais mais importantes pela UNESCO, Cada Dor que Anda na Rua - perVersos Urbanos expõe, além da rotina dura a que está submetida a gente urbana do século XXI, outras mazelas impostas pelas megacidades.

Composta quase em sua totalidade de micropoemas, a obra pretente desencadear - com intencionais rimas às vezes simplificadas, linguagem popular, sinalizando o eu-poético mais vitimado pela (des)modernidade, mas permeada de muito duplo sentido - alguma meditação sobre o que afinal de contas não deveríamos, como bons seres humanos, nos tornar: "perVersos urbanos".

Lançado no Dia Nacional das Artes, 12 de agosto de 2010, o pequeno livro digital foi arquitetado propositadamente para uma leitura ultraveloz (a obra toda leva poucos minutos para ser lida), pois que sua concepção é direcionada para a internet e pretente também ilustrar a correria cotidiana das megalópoles.

Esta versão traz o texto integral e contém ainda algumas das fotografias que compunham a ideia inicial do projeto.

O acesso gratuito à obra original é feito pelo link www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/obrasdigitais/dorqueanda/capa.php

Créditos

Copyright © 2010 Fabbio Cortez

Todos os direitos reservados e assegurados pela Lei 9.610/98
Reg. Biblioteca Nacional/EDA-Escritório de Direitos Autorais

Editoração e diagramação Leila Míccolis
Concepção de capa Mecso
Revisão Enzo T.
Foto do autor Marianna Cortez
Demais fotos (todas do Rio de Janeiro) Fabbio Cortez
_______________________________________

C828c
Cortez, Fabbio. Rio de Janeiro.

Cada Dor que Anda na Rua – PerVersos Urbanos.
Rio de Janeiro: Editora BLOCOS, 2010.
40 p.

Digital

1. Literatura brasileira – Poesia. I. Título
________________________________________

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Editores:
Urhacy Faustino e Leila Míccolis

Brasil/Brazil



Epígrafe


"La résignation est um suicide quotidien."
Balzac




Poemas do autor que inspiraram a obra


e um poeta
vai vivendo a-penas

cada dor que anda na rua
para ele se insinua
vestida de seu melhor silêncio

o que a vida me-dita às vezes
canto às vezeS

Cortez, Fabbio
Rua Estoica – in Saciedade dos Poetas Vivos digital, vol. I
Editora Blocos, Rio de Janeiro, 2006



sou só uma criança cega
brincando de veR

Cortez, Fabbio
Da série Crianças Comentam Estrelas – in Opúsculo sobre Gestos
Edição do Autor, Rio de Janeiro, 1991

Os poemas

¬
aD AETERNUM


segunda,
segunda,
segunda,
segunda,
segunda,
antevéspera de segunda,
véspera de segunda.

e a vida redundA

















jOGO DURO


acaba que todo mundo tem um não
escondido debaixo da manga
para uma emergênciA




sORTE


ao cair no abismo
logo vem a morte
antes que a dor.

nisto sempre cismo:
ter alguma sorte
seja como foR




aTO FALHO


às vezes,
sem querer cometo pequenas bondadeS

















sOB AS MARQUISES I – BOM E RUIM


na hora de deitar,
ninguém pra ralhar comigo:
"não vá dormir sem lavar os péS!”




sOB AS MARQUISES II – TANTO FAZ


dum terrível pesadelo
ou dum sonho bom,

para alguns
sempre é mais difícil acordaR




bALA PERDIDA


foi
por pouco.

afasto-me
do corpO

















o QUE POSSO DIZER DE CONCRETO


quem me dera ser o pedaço quebrado
dessas estátuas invisíveis
a caçar a dinastia na poeira do trânsito

ou o reboco descaído dos muros
com fantasmas rabiscados
pelos parachoques bêbados da cidade.

nem isso.

sou do edifício,
do meio-fio,
da esquina,
de tanta esquina

o suicídio,
o tropeço,
o vício,
o meretrício.

pois se nem a sombra dos heróis
que cavalgam inertes
me dão honras,
e deles herdo somente a queda,

contraio-me como pedrA




hUMANO


disfarço e apalpo os bolsos
a ver se não perdi as chaves
ou algo do gênero

(humano)

sou um deles,
mas me pego a olhar para outro sentido.

fico sentido,

contudo
sigo com tudO




uÉ! I – COM TATO


toquei numa mancha de sangue
e me sujei de friO




uÉ! II – MICROCRÔNICA CRÔNICA


tomei um susto
ininterruptO!




uÉ! III – A FILA ANDA


mas quase ninguém
dá um passo adiantE

















aVENIDA CENTRAL


sinto-me muito importante
andando pela avenida central,
todos são importantes
andando pela avenida central:

menores,
piratas,
mendigos;

pirados,
malandros,
perdidos

et cetera e tal.

sinto-me muito importante
andando pela avenida central,
todos são importantes
andando pela avenida centraL




vERDADES


numa praça histórica,
um sujeito prega.

uns dizem-no escolhido,
aqueles, um mago,
outros, a solução de todos os nossos velhos problemas.

"é somente mais um hipócrita eloquente!",
alguns atacam.

mais ao largo,
num bando de silêncios desesperados,
a inveja fluente no pensamento de um gagO

















vERGONHA É ROUBAR


por isso não coro
quando digo onde morO




sINAL


olhe, moço,
eu de novo a desconcertar seus nervos executivos,
crente em conseguir um troço
melhor
na vida.

desculpe-me.

o melhor da vida é o troco,
o resto da melhor das intenções,
já imaginou um hambúrguer?
muita gente diz que ter misericórdia gera violência.
e é isso mesmo, moço, é justo,
é tudo muito justo,
qualquer coisa está bom, Deus lhe pague,
já dá para comer uma violenciazinha.

eu daqui de fora de sua vida e de seu carro
não sei saber de seus problemas,
da explosão de seu cartão de crédito,
das esquisitices de seus filhos,
dos arranca-rabos lá pro seu lado,
dos desquites, dos cânceres de sua família,
desculpe, peço-lhe mil desculpas.

é que há muita coisa entre nós:
esse vidro tenso, a película sombria,

a trama de sua roupa limpa,
de certa qualidade; depois seu corpo lavado
com sabonete líquido,
então sua benevolência de morto amador,
é frio aí dentro, moço? sei, o ar está gelando,
desculpe.

desculpe-me por pedir desculpa,
é que há muita coisa entre nós:
sei que o senhor é bem vivo - anos de estudo,
não é possível! -,
o senhor é bem vivo pra saber estar morto,
mortinho da Silva, assim como eu,
só que sem experiência.
que nessa área eu que sou doutor, moço,
não vem que não tem, me desculpe.

mas não se preocupe,
com o tempo o senhor também chega lÁ

















cONTROLE REMOTO


não sei se isto
é um alerta:

mas quanto mais assisto
à tevê aberta,
mais desisto
da coisa certA




gAUCHE
a Drummond

- quando nasci tinha uma pedra no meio do caminho...
- e agora, José?
- eta vida...
- vai!
- mas como dóI!




uM HOMEM SÓ


cada homem é uma coleção de homens.

uma multidão solitária.

agora, por exemplo, estou revoltado,
a ponto de ter um troço,
está olhando para mim por quê?

agora, manso, educado,
querendo ajudar a todos,
com licença, obrigado.

e há muito mais de nós
caso alguém queira saber.
e se ninguém se interessar
outros de mim que me confortem.

sou só um homem,
um homem só,
sem saber se é mais certo ou errado:
sou um homem só,
sou só um homem
entre mim, a virtude, o pecadO

















rEPARO


reparo na deseducação obstinada,
reparo nos civilizados omissos,
reparo nas interpretações equivocadas,
reparo no "e eu com isso?"

reparo numa pá de coisa errada:

um reparo, por DeuS!




eDUCAÇÃO DE RUA I – CLASSE DIURNA


disseram-me para ser educado,
por isso xingo em silênciO




eDUCAÇÃO DE RUA II – CLASSE NOTURNA


baratas,
ratazanas,
comida azeda,
vômito dos bêbados,
escarros dos doentes profissionais,
mijo dos travestis,
bueiro entupido,
bicho morto,

boa noitE!




gANGUES


ser
do
bem
não
nos
cai
beM




oITO ANOS
a Casimiro

oh! que ansiedade que tenho
na aurora da minha vida,
a minha infância perdida
não perdoarei jamais!
que amor, que sonhos, que flores?
Mazelas: tanta canseira
assombra às segundas-feiras
no aço das capitais!

como são tristes os dias,
o desfolhar da existência!
— expira a alma de ausência
como o ferido de dor;
um mar de amargo veneno,
um céu de anjos malvados,
o mundo é um sonho roubado,
a vida defino: sem coR!

















fESTEIRO


depois de tanta festa
dói-me a razão na testa:

será que presta
o que a mim restA?




fAST FOOD


fera faminta, quero dilacerar alguém,
alguma coisa,
qualquer coisa,
quero abocanhar, matar,
quero esfolar, comer, trucidar,
lamber o fundo do prato,

ir ao intrínseco paladar do tutano.

mas se me derem um sanduíche e um refresco
naquela lanchonete
por hoje me dou por satisfeitO

















qUAL O SEU PESO?


há tanta gente que anda meio voando.

será que a gravidade se esqueceu
por um momento
de trabalhar na gravidade
do momentO?




cOISA COM COISA I - JANELAS


alumínio com alumínio,
madeira com madeira,
um equilíbrio mínimo,
será isso besteirA?




cOISA COM COISA II - CULTURAS


uns poucos violinos
bem tocados
entre tantos tamborins
bem tocados
trarão enfadO?

















cOISA COM COISA III - REFORMAS


será que fazer direito
e dar um jeito
têm mesmo
o mesmo efeitO?




pERTURBADO


perturbado com a sujeira intransponível
das ruas da megalópole,
(tudo muda, o novo não é novo)
aproveito o ensejo do nojo:

divisão de classes me perturba,
gente sem classe me perturba,
preconceito mudo me perturba,
sorriso forçado me perturba,
disse-que-disse me perturba,
caridade hipócrita me perturba,
pseudopatriotismo me perturba,

a vitória da mediocridade... pfuuu! como isso me perturba.
(tudo muda, o novo não é novo)

beleza arrogante me perturba,
sensualidade burra me perturba,
mau gosto solenizado me perturba
amizade só de sim me perturba,
ingratidão de amor puro me perturba,
pisar em ovos me perturba,
interesse enviesado me perturba,

insensibilidade... céus! insensibilidade definitivamente me perturba.
(tudo muda, o novo não é novo)

e assim como qualquer qualidade de imundície estabelecida me perturba,
toda novidade imunda me perturba, me perturba, me perturba:

sou um perturbado
diante da visão do novo imundO

Sobre o autor


Fabbio Cortez é poeta e escritor. Autor de “Público Cativo”, poesia, Oficina Editores, 2007 e “Os Casos do Velho”, contos, Ed. Autor, 2009, entre outras obras, também tem muitos de seus trabalhos em antologias alternativas contemporâneas e em revistas eletrônicas no Brasil e no exterior.

Carioca criado no subúrbio, patriota no melhor sentido da palavra, é pai de Marianna e Fabbio Gabriel.

É da área de Letras e membro da União Brasileira de Escritores - UBE/RJ
Conheça um pouco mais sobre o autor em
Minibiografia
e
Obra e estilo

Se quiser contatá-lo profissionalmente, tecle para
contato@fabbiocortez.com


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